O Mistério de "Enchanted Farm": De Uma Selva Imaginária aos Cramps


Ontem à noite estava a recordar os Cramps no Spotify, a escutar aqueles sons singulares que só Lux Interior e Poison Ivy conseguiam criar, e, de repente, fez-se luz. Lembrei-me de uma rubrica que já não existe por aqui, a saudosa "Cool and Strange Sounds", e de uma faixa que publiquei originalmente em 2010. É, talvez, a mais maravilhosa e invulgar música que alguma vez partilhei nesse espaço.

Naquela altura, confessei-vos que não fazia a mais pequena ideia de quem eles eram. O All Music Guide não oferecia respostas, não havia uma única fotografia disponível e a internet era um autêntico deserto sobre o assunto. 

Apenas conhecia o nome: Forbidden Five (que, sublinhe-se, não devem ser confundidos com os "The Forbidden 5"). A composição chama-se "Enchanted Farm" e sempre me fascinou pela sua atmosfera de outra dimensão, tendo marcado presença em compilações gloriosas como "Only in America: 100% Pure Incredibly Strange Music", "Ultra-Lounge: Organs in Orbit" e, acima de tudo, no volume sagrado das "Lux and Ivy Favourites - Volume I".

Hoje, dezasseis anos depois dessa minha confissão de total desconhecimento, decidi investigar a fundo para descobrir a origem deste som esquecido. E a verdade é fascinante. 

"Enchanted Farm" não é, afinal, obra do acaso, mas sim um projeto singular de um único lançamento, gravado em 1959 por um teclista genial e subestimado chamado Bobby Hammack. A sua intenção era satirizar a febre da música Exotica que dominava a época, popularizada por nomes incontornáveis como Martin Denny e Les Baxter. Foi editado através da Capitol Records, num memorável disco de 7 polegadas repleto de sons de selva e efeitos sonoros excêntricos, cruzando órgãos espaciais com o tom etéreo de um theremin (Beach Boys para sempre !).

E onde entra a nossa admiração pelos saudosos Cramps nesta história? 

A explicação é simples. Lux e Ivy, como verdadeiros arqueólogos do rockabilly, do garage obscuro e de sonoridades bizarras, eram colecionadores meticulosos destes discos perdidos das décadas de 50 e 60. Compilaram listas exaustivas das suas maiores influências para partilhar com o público — as famosas "Lux and Ivy's Favorites" —, e os nossos Forbidden Five constavam dessa seleção com todo o mérito. 

Lux Interior ouvia esta composição e absorvia exatamente o seu humor negro, irónico e peculiar, canalizando essa energia criativa para a atitude subversiva e selvagem que os Cramps viriam a apresentar ao mundo.

É por causa de pérolas perdidas como esta que a história do rock se mantém inesgotável. Aumentem o volume, imaginem-se numa selva exótica e deixem-se envolver.

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