Nunca fui um verdadeiro colecionador.
Aceito, quanto muito, o epíteto de "colecionista" de nichos muito específicos e idiossincráticos, pois, ao longo da vida, os meus únicos apegos materiais cingiram-se à discografia dos Mão Morta e aos vintage Guerreiros do Mal dos Masters of the Universe.
Fora destas raras exceções, debato-me com uma inata dificuldade em acumular objetos pois, por exemplo, durante largos anos ostentei uma formidável coleção de vinis, CD e cassetes, ultrapassando largamente o milhar de exemplares, mas que fui paulatinamente vendendo/oferecendo o espólio.
O mesmo destino traçou-se para a vasta biblioteca, parte do meu pai, que outrora forrava as paredes das casas onde vivi, com os seus mais de seiscentos volumes, que fui selecionando e doando.
A título de exemplo, entreguei mais de cento e cinquenta livros sobre território — abordando cidades, municípios e regiões — à CIM Cávado, com a esperança de lá ver nascer uma futura biblioteca intermunicipal. Outros tantos encontraram morada na Casa Museu Júlio Dinis, em Ovar, ou em diversas bibliotecas.
Não se trata apenas da insofismável falta de espaço físico em casa, que é, de facto, premente. Prende-se, acima de tudo, com uma profunda convicção filosófica: a cultura existe para ser partilhada, não para ser zelosamente guardada no escuro, à imagem de um Gollum enclausurado com a sua "precious".
Eis que, de súbito, a vida nos prega partidas e nos confronta com as nossas próprias contradições.
Deparei-me, quase por acidente, com uma coleção de quatro canecas da série Friends, distribuídas pelo McDonald's. Não consigo explicar, à luz da racionalidade, o motivo pelo qual teimei fervorosamente em conseguir os quatro exemplares.
O paradoxo adensa-se quando recordo que, durante a sua emissão original nos anos noventa, nunca fui um devoto da série. Embora lhe reconhecesse o mérito de ser uma sitcom de excelência, dotada de um argumento exímio e marcante, o fascínio passava-me ao lado, mesmo perante as inesgotáveis reposições televisivas ao longo dos anos, o meu interesse mantinha-se estoicamente nulo.
Tudo mudou, contudo, há relativamente pouco tempo. Num final de dia, através dos catálogos de streaming da Netflix, comecei, de forma esporádica e quase acidental, a visualizar alguns episódios.
Não sei se fui acometido por uma súbita nostalgia pela década de noventa, se foi a qualidade intemporal da escrita, ou talvez uma conjugação de ambas. O certo é que me vi irremediavelmente enredado. Comecei a fixar cenas e, num sintoma típico da minha personalidade, passei a introduzir diálogos e metáforas da série nas minhas conversas do quotidiano.
O ápice desta obsessão tardia manifestou-se de forma hilariante durante a minha participação na Conferência da National Association of Development Organizations em 2025.
Na noite anterior ao nosso painel, rodeados de hambúrgueres e refrigerantes, a conversa da equipa resvalou inevitavelmente para Friends. Entre risos, recordámos a cena do Sofa/Pivot, aquele momento de puro génio cómico em que Ross, desesperado e ladeado pelos seus amigos, tenta manobrar um volumoso sofá pelas escadas exíguas do seu prédio, gritando histericamente "Pivot!".
Inspirado por este momento, lancei um desafio aos meus cinco colegas de painel: cada um de nós teria de usar a palavra "pivot" nas nossas rigorosas intervenções do dia seguinte. O resultado foi um momento absolutamente inesquecível para este pequeno grupo. O nosso colega Chuck, numa interpretação algo excessiva das regras e dominado pelo entusiasmo, chegou mesmo a proferir a expressão três vezes durante o seu discurso.
Este inesperado reencontro com a cultura pop dos anos noventa fez-me também refletir sobre a dimensão humana e, por vezes, frágil daqueles que nos fazem rir. Tocou-me profundamente a história de vida do ator que deu corpo e alma ao sarcástico Chandler — o inesquecível Matthew Perry — e o impacto emocional do recente episódio de reunião do elenco.
Foi aí que compreendi a verdadeira magnitude desta obra que não me parece que seja um mero artefato nostálgico para os que partilham a minha faixa etária, mas um fenómeno intergeracional que continua a cativar os mais novos.
Resta-me a esperança de que as minhas filhas, quando atingirem a maturidade necessária, consigam apreender o encanto ingénuo e brilhante desta sitcom passada na Nova Iorque do final do século XX.
Por agora, o triunfo é palpável: as quatro canecas moram lá em casa. E a derradeira ironia deste meu lado "colecionista" é que, ao contrário dos meus intocáveis vinis e action figures, estas canecas coloridas não habitam uma vitrine.
Elas cumprem o seu desígnio mais nobre, marcando presença assídua e sendo usadas em alguns dos nos nossos pequenos almoços em família.

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