Neste sábado, decidi abrandar o ritmo e tirar umas horas preciosas para regressar a uma daquelas obras que, inevitavelmente, marcaram a minha vida de cinéfilo. Ao lado de clássicos absolutos como os britânicos Monty Python (Holy Grail, The Life of Brian ou The Meaning of Life), a densidade de O Nome da Rosa, os universos de Tarantino (From Dusk Till Dawn, Pulp Fiction, Reservoir Dogs), há um espaço cativo na minha prateleira (e na memória) para diversos filmes do mestre Stanley Kubrick.
O eleito de hoje foi a brilhante comédia negra e sátira política de 1964: Dr. Strangelove or: How I Learned to Stop Worrying and Love the Bomb (em Portugal, Dr. Estranho Amor), na forma de uma edição especial em DVD do 40º aniversário (2004), que comigo está há mais de 15 anos.
É impossível não mergulhar de imediato no brilhantismo deste argumento e, sobretudo, na forma como a fita envelheceu – ou melhor, como a realidade insistiu em imitar a ficção, nos dias que correm em que temos um louco na Casa Branca a desvirtuar décadas de solidariedade do eixo europeu/norte-americano.
Se na altura o mundo estava claramente dividido em dois blocos ideológicos em colisão, hoje damos por nós num cenário onde, por vezes, os EUA quase parecem alinhar com interesses russos.
Para compreender a magnitude de Dr. Strangelove, é essencial fazer o enquadramento da época em que foi feito pois estávamos em pleno pico da Guerra Fria, com os EUA e os Aliados de um lado, e a União Soviética do outro, sob a constante ameaça da aniquilação nuclear mútua.
A premissa central do filme arranca quando um tipo completamente doido e embriagado de poder, o General Jack D. Ripper, decide lançar o "Plano R", um ataque nuclear não provocado. Assistir a isto hoje faz-nos engolir em seco: a ideia de termos "um maluco na Casa Branca com o dedo no botão" já não parece um delírio satírico, mas sim uma manchete de jornal perfeitamente plausível.
O humor de Kubrick reside no absurdo levado a sério. Toda a crise global é espoletada pela insanidade de Ripper e a sua obsessão bizarra com a contaminação comunista dos "fluidos corporais naturais" (natural body fluids) da nação americana através da fluoretação da água.
Esta alienação da realidade gera momentos de comédia que roçam o genial, até pela questão da contaminação dos nossos fluídos corporais, por exemplo, quando no meio de uma base militar sitiada, parcialmente destruída, com o fim do mundo ao virar da esquina, o Capitão Mandrake precisa de moedas para fazer uma chamada de emergência para o Presidente dos Estados Unidos e tenta arrombar uma máquina de Coca-Cola. A resposta que recebe do Coronel Bat Guano é hilariante - tal como seu nome – quando ele avisa-o com toda a gravidade de que, se não conseguir falar com o Presidente, vai ter de "responder à empresa da Coca-Cola por destruição de propriedade privada". O mundo acaba, mas o capitalismo tem de ser indemnizado.
O filme é um autêntico masterclass de representação, muito graças à força da natureza que é Peter Sellers. Neste filme, ele desdobra-se em três papéis distintos, todos vitais: o sensato Capitão britânico Lionel Mandrake, o Presidente dos EUA Merkin Muffley e, claro, a joia da coroa, o cientista alemão ex-nazi Dr. Strangelove (cujo verdadeiro nome, descobrimos, era Merkwürdigliebe). A capacidade de Sellers de saltar entre estes registos é qualquer coisa de fantástico, cimentando o seu estatuto muito para além de sucessos como Lolita ou A Pantera Cor-de-Rosa.
Esta sua veia camaleónica remeteu-me logo para um dos grandes filmes da minha infância, O Rato Que Ruge (The Mouse That Roared, 1959), onde Sellers também domina o ecrã interpretando múltiplas personagens, numa outra sátira brilhante (e altamente recomendada) sobre a diplomacia e o armamento global.
Mas o elenco secundário não lhe fica atrás. George C. Scott (que imortalizaria o General Patton e brilharia em Hardcore) entrega uma performance estrondosa como o General Buck Turgidson, focando-se numa paranoia incessante, sempre a mastigar pastilha elástica e a tentar convencer o Presidente de que estão a ser aldrabados pelos russos mesmo à beira do Armagedão.
Vale também a pena notar a estreia no grande ecrã de um jovem James Earl Jones (que mais tarde nos daria a voz de Darth Vader em Star Wars e o Rei Jaffe Joffer em Coming to America) no papel do Tenente Zogg, o bombardeiro estoico que cumpre a sua missão até ao fim.
Este DVD que estive a rever, para além da qualidade inerente da obra, traz nos seus extras (como documentários e material de bónus) aquelas pérolas que fazem valer a pena colecionar formato físico.
Entre as várias preciosidades desta edição comemorativa, estão as entrevistas promocionais simuladas (mock interviews) com George C. Scott e Peter Sellers, fragmentos de humor que prolongam a magia muito para lá dos 95 minutos da longa-metragem.
No final desta tarde de sábado, a conclusão que tiro é a mesma de há muitos anos. Dr. Strangelove não é apenas uma sátira formidável; é um documento vital sobre a estupidez bélica, a burocracia do apocalipse e a fragilidade do ego humano. Stanley Kubrick fez com que ríssemos do fim do mundo, e a verdade é que, mais de meio século depois, a piada continua a ter demasiada graça…. Ou não...
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