Todos aqueles que sentem um carinho especial pelo Surrealismo, pelo Psicodelismo e por outros movimentos ligados à imaginação livre, partilham uma admiração natural pelo universo mágico de Lewis Carroll.
Existe um encanto muito próprio na forma como o autor desafiou as regras do mundo real e nos convidou a sonhar de olhos abertos.
Como tantos outros da minha geração, o meu primeiro encontro com este imaginário maravilhoso aconteceu através do fabuloso filme de animação de Alice no País das Maravilhas (Walt Disney, 1951) .
Esta obra da década de cinquenta continua a ter um lugar muito especial na nossa memória afetiva. Apesar das muitas adaptações que surgiram ao longo dos anos, é inteiramente justo fazer uma vénia aos dois filmes de Tim Burton — nomeadamente o seu Alice in Wonderland (2010) —, que souberam dar um toque mais sombrio e cativante a este clássico.
Foi na literatura que a verdadeira viagem se deu. Recordo-me perfeitamente de ler os dois livros nas edições de bolso da editora Europa-América e a vontade de compreender melhor esta mente brilhante levou-me, mais tarde, a mergulhar numa excelente biografia de Lewis Carroll, onde a origem da sua obra é analisada com grande profundidade e onde percebemos a complexidade do homem por trás da fábula.
Para celebrar este gosto contínuo, recordo um pequeno excerto que ilustra na perfeição a liberdade imaginativa do autor. Retiradas do célebre poema "The Walrus and the Carpenter", estas linhas resumem a bela e poética desordem do seu pensamento:
"The time has come," the Walrus said,
"to talk of many things:
of shoes and ships and sealing-wax
of cabbages and kings.
And why the sea is boiling hot
and whether pigs have wings."

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