Crónicas de um Surfista de Meia-Idade (14.ª): A Arquitetura das Nossas Referências e o Apelo do Mar


É com um misto de saudosismo e de inabalável convicção que decidi resgatar, do silêncio a que o tempo por vezes nos obriga, as "Crónicas de um Surfista de Meia-Idade" que foram publicadas entre 2020 e 2021 na SurfTotal.

Esta décima quarta reflexão nasce de uma constatação reconfortante: o privilégio incomensurável de pertencer a um núcleo de amigos que, partilhando a mesma faixa geracional – algures nessa vasta e complexa planície dos quarenta e cinquenta anos –, mantém viva a chama indomável pelo mar e pelo asfalto. 

Há já mais de oito anos que trilhamos juntos este caminho, convergindo, sempre que os ventos e as marés o permitem, para a comunhão sagrada de uma sessão de surf ou de uma descida em skate.

Naturalmente, as exigências da vida adulta impõem-se com a sua inexorável gravidade. As carreiras absorvem-nos, a paternidade reconfigura as nossas prioridades e o quotidiano, tantas vezes esmagador, tenta ditar o ritmo dos nossos dias. 

Contudo, a amizade pura e o fascínio partilhado por estas pranchas revelaram-se a argamassa inquebrantável que nos une. A dinâmica deste grupo transcende a mera prática desportiva; ergue-se como um verdadeiro porto de abrigo. 

Sempre que a turbulência se instala ou quando o peso da rotina afasta temporariamente um de nós da água, há invariavelmente uma voz que quebra o isolamento. Um telefonema, uma mensagem, uma chamada de atenção carinhosa e firme, convocando o ausente de regresso à essência daquilo que verdadeiramente nos move e pacifica.

Foi precisamente no seio seguro desta irmandade que emergiu, há dias, uma provocação filosófica imprevista. Um de nós atirou para o éter digital uma questão tão simples quanto abissal: o que somos nós, afinal? 

Seremos meramente o produto irremediável das nossas referências familiares, culturais e políticas? Seremos uma manta de retalhos cerzida pelo contexto em que fomos lançados ao mundo? O debate que se seguiu desenrolou-se entre a nostalgia afiada e a lucidez cortante. 

Das memórias de estéticas obscuras e sapatilhas icónicas aos heróis improvavelmente soturnos que povoavam o nosso imaginário, cada reflexão serviu para ilustrar a forma como fomos esculpidos pelas décadas que atravessámos. E, de forma orgânica e quase inevitável, todas essas raízes intelectuais e estéticas nos conduziram de volta ao oceano.

A banda sonora que moldou a nossa psique é, sem dúvida, o testemunho mais vivo dessa amálgama cultural incontornável. A música habitou sempre as nossas discussões, oscilando graciosamente entre o peso terapêutico, quase industrial, de ícones como The Young Gods, à elegância sonhadora da 4AD nos Cocteau Twins, a electronica dos Lamb e a poesia melancólica, subitamente celestial, dos Madredeus.

Cada um de nós transporta para o alinhamento de uma onda a ressonância exata dessas batidas noturnas, descobrindo, não raras vezes, que o desgaste das nossas ancas e joelhos talvez seja também o reflexo honesto das catarses musicais que vivemos nos anos noventa. 

No final, as nossas fundações identitárias, por mais díspares ou intensas que sejam, encontram a sua perfeita harmonia no momento em que entramos no mar. 

Ali, despidos dos artifícios da sociedade, o passado funde-se com o presente, confirmando que uma esquerda ou direita bem partilhada ao fim do dia continua a ser a mais lídima e cristalina expressão daquilo em que nos tornámos.

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