Nas páginas de Down with the System, as memórias de Serj Tankian emergem não apenas como o relato de uma estrela de rock, mas como o testemunho de uma alma moldada pela diáspora e pelo som das bombas.
Há uma verdade inegável nas palavras do vocalista dos System of a Down: a guerra deixa de ser um exercício académico ou geopolítico no momento em que o terror se entranha na medula, vibrando como um diapasão perante cada novo conflito, seja em Artsakh ou na Ucrânia.
Recordo a máxima de Bertrand Russell, que tão bem ilustra esta hipocrisia civilizacional: todos parecem deleitar-se na retórica do conflito, mas ninguém deseja a guerra à sua porta.
A experiência da emigração é um fio condutor que une gerações. Ao ler sobre a chegada da família de Tankian aos Estados Unidos, é impossível não traçar paralelismos com a história da minha família, que mais de 70% está ou esteve emigrada em países tão diversos como Brasil, Japão, França, Suíça, África do Sul, Venezuela e, embora num registo diferente e *mutatis mutandis*, eu na Bélgica.
Existe uma distância emocional e física que se instala, e muitas vezes, em Portugal, falamos das histórias daqueles que vão e dos seus profundos problemas de adaptação e saudade e negligenciamos o vazio e a eterna espera de quem permanece no cais, guardando o lugar de uma identidade que a distância teima em diluir.
A emigração não é apenas uma mudança de coordenadas geográficas; é uma fratura na continuidade do ser, um estado de perpétua procura de pertença num sistema que, frequentemente, prefere o silêncio do imigrante à sua voz política e que Tankia tão bem descreve.
Não pensem que este é mais um livro sobre as digressões ou episódios dos System of a Down e quem pensa que vai encontrar isso, em abundância, vai sentir se defraudado.
E claro que a narrativa de Tankian é pontuada por episódios como o encontro com Lemmy Kilmister nos bastidores do Ozzfest ou o diálogo com Ozzy Osbourne em Birmingham, quando este reduziu a sua cidade natal a uma "lixeira industrial".
E importante vivenciar a paixão que Tankian dedica às suas causas, provando que a música alternativa não é apenas uma questão de estética sonora, mas um veículo para transmitir mensagens. Aliás, esse é o verdadeiro ethos do Punk Rock.
Esta simbiose entre arte e intervenção social, que Tankian recorda com Peter Gabriel, remete-nos imediatamente para a nossa própria história e para as figuras de Zeca Afonso ou José Mário Branco, ou com colectivos como Consolidated, bandas como os Bad Religion ou o imperativo Exercise Your Right dos Disposable Heroes of Hiphoprisy.
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