O tempo tem a particularidade de trazer uma nova claridade à nossa escuta, sendo que a perceção da verdadeira dimensão artística de Joni Mitchell apenas me atingiu na plenitude de uma idade mais madura.
Arrisco-me mesmo a confessar que foi apenas na ultrapassagem da barreira dos quarenta anos que iniciei a exploração mais atenta de alguns dos seus álbuns mais interessantes, dedicando-lhes finalmente a atenção que a sua vasta obra exige.
A sua figura, contudo, nunca representou um vazio na minha memória musical, uma vez que o convívio com os amigos do meu pai me havia proporcionado um primeiro contacto.
Foram precisamente esses amigos que, no final da década de setenta, ainda imersos na ressaca dos anos sessenta e não se confinando estritamente à música de intervenção, escutavam o rock clássico de Bob Dylan, de Eric Clapton e da própria Joni Mitchell, acabando assim por me dar a conhecer a voz desta cantora.
O ano de 1997, mostrou a, de forma inesperada através do disco de R&B de Janet Jackson, The Velvet Rope, que inclui um sampler desta mesma composição na faixa "Got 'Til It's Gone".
Que fique bem claro que, na fruição da música ou da arte, nunca escolhi trincheiras nem fações, pois recuso a ideia de que isto represente uma guerra.
O preconceito não tem lugar na minha audição, que sempre abrangeu livremente o que me despertava interesse, quer fosse Soul ou R&B, Stoner ou Doom, Trip Hop ou Drum and Bass.
É imperativo sublinhar que esse álbum da Janet Jackson, em particular as remisturas da referida canção, revela um mérito espetacular.
Apesar destas memórias, a Big Yellow Taxi e o seu profundo carácter de defesa ambiental apenas me ocorreu de forma muito recente.
A canção traduz-se numa crítica à voracidade da expansão urbana, imortalizada na célebre denúncia da destruição de um paraíso natural para dar lugar à construção de um parque de estacionamento alcatroado, num cenário que ilustra o desrespeito pela natureza.
Já discuti, abundantemente, as questões da preservação do nosso ecossistema e do planeta, mas a verdade é que quando esse alerta ecológico é transportado e ampliado pela música, a sua mensagem ganha inevitavelmente uma ressonância universal e um impacto muito superior.
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