O Regresso a Heinlein: Sobrevivência e Polémica no Espaço

 

Robert A. Heinlein é um dos grandes nomes da ficção científica, lado a lado com Arthur C. Clarke e Isaac Asimov. Li alguns dos contos na clássica Colecção Argonauta e guardo na memória as adaptações ao cinema: Destination Moon (1950) e o Starship Troopers (1997).

Estou prestes a terminar o primeiro volume de um dos seus livros mais debatidos: "Time Enough for Love", editado em Portugal como "A História do Futuro".

A leitura deste primeiro volume é bastante acessível e fluida pois apresenta-nos Lazarus Long, o humano mais velho do universo, que, em diversos contos ou noveletas, partilha as suas memórias sobre a expansão da nossa espécie. 

Heinlein descreve a chamada Diáspora, onde a humanidade atingiu uma escala impressionante, referindo o texto que "deve haver mais de dois mil planetas colonizados, e mais de quinhentos mil milhões de pessoas". 

O autor rejeita visões românticas sobre a conquista espacial. Para ele, o ser humano é uma espécie focada na sobrevivência. Os pioneiros partem para o espaço para garantir a continuidade da espécie, superando obstáculos com uma vitalidade feroz e prática, recordando-nos o autor, de forma crua, que "até agora não encontrámos uma única espécie tão maldosa, tão canalha, tão mortífera como a nossa".

Apesar de o início da trilogia ser direto, as críticas alertam que os volumes seguintes mudam de tom. A grande polémica da obra concentra-se no terceiro livro, onde Heinlein decide aprofundar o tema do incesto que começa a ser tratado, logo no primeiro volume, de todas as formas que possam imaginar.

Esta polémica não surge por acaso, mas como um reflexo direto das suas conhecidas visões libertárias pois ele utiliza a ficção científica para testar os limites da liberdade individual e para confrontar os grandes tabus da sociedade. 

Ao suspender as regras morais tradicionais no seu universo literário, Heinlein desafia o leitor a pensar de forma livre e crítica sobre as convenções que nos regem.

Como não podemos terminar sem música, 

Na antiguidade clássica, o Elysium, ou Campos Elísios, era o paraíso helénico pois representava o lugar de descanso sereno para os heróis e para as almas justas. 

No livro, Heinlein brinca de forma prática com esta ideia pois o Elysium não é um local sagrado, mas sim uma conhecida "casa de diversões" para onde Lazarus Long planeia ir para festejar com quatro ou seis dos seus descendentes, logo que o seu corpo termine o complexo processo de rejuvenescimento.

Sempre que a literatura e a cultura popular cruzam este tipo de "casa de diversões" é fácil recordar imediatamente o clássico "La Grange" dos ZZ Top, com a sua promessa de "nice girls", ou a energia mais crua de "Devil's Whorehouse" dos Misfits.

Contudo, a leitura desta passagem remeteu-me sem demoras para o tema "Stone Wedge" dos Eternal Elysium. Este trio japonês de Doom Stoner, no ativo há quase quatro décadas, assina uma sonoridade marcante que figurou nas minhas play lists durante muitos anos.

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