Criei este espaço para falar de música, dos filmes e da arte que acompanham a minha vida.
No entanto, a arte é, frequentemente, um instrumento da política, e a própria política deve também ser um instrumento da arte.
Foi exatamente isto que pensei hoje ao sair do Cinema Aventure, em Bruxelas, após assistir a "La Bataille de Gaulle: L'Âge de Fer".
Hesitei em escrever sobre a obra e cheguei a questionar-me se faria sentido justificar a escolha de um tema com um peso histórico tão evidente.
Desde a universidade que me revejo num espaço moderado, entre a democracia cristã, um centro-direita liberal e a social-democracia, com uma atenção constante à defesa dos princípios que fundaram a União Europeia.
Aliás, basta ler o recente artigo que escrevi no Observador para perceber qual a minha posição no espectro político atual.
Nesse contexto, o General de Gaulle não é apenas uma figura do passado francês; é um símbolo de resistência e de valores que a Europa e muitos de nós ainda hoje partilhamos.
O filme prende a nossa atenção durante quase três horas de forma muito direta.
Quando lemos sobre a Segunda Guerra Mundial no conforto do presente, cometemos o erro de achar que a vitória final era um dado adquirido. Esquecemo-nos das dificuldades extremas do processo.
É uma falha humana natural: da mesma forma que o tempo apaga o nervosismo das grandes provas académicas ou as noites de angústia quando algo acontece a um nosso ente querido, também a História tem tendência a apagar as dúvidas de quem viveu a incerteza do momento.
Mas a verdade é que o caminho, tal como a vida, se fez de derrota em derrota, até ao desfecho vitorioso.
Não tenho qualquer atração por conflitos bélicos, mas aquele período foi um marco definitivo. Foi o momento em que os vários povos perceberam que partilhavam um destino único e inseparável.
Ao mostrar de forma tão crua as tensões e ruturas entre irmãos e compatriotas, a obra cumpre a sua função mais importante: lembrar que o projeto europeu é uma construção diária e mostrar de forma clara o abismo que temos de evitar a todo o custo.
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