Se alguma vez se questionou sobre o que aconteceria se o Esquadrão Suicida cruzasse caminho com a Liga dos Cavalheiros Extraordinários em pleno universo de Blackadder, Joe Abercrombie acaba de lhe dar a resposta.
Ambientado numa versão alternativa e politicamente turbulenta da Europa medieval, The Devils arranca com o Irmão Diaz — um monge devoto e algo protegido — a ser nomeado para liderar a Capela da Santa Conveniência. Esta força-tarefa secreta não é composta por heróis de armadura brilhante, mas sim por seres sobrenaturais condenados, obrigados a servir a Igreja quando o trabalho sujo assim o exige.
No topo desta complexa teia de poder e religião está a Pope Benedicta, uma figura central de autoridade num mundo à beira do colapso. A missão atribuída ao grupo é clara e urgente: escoltar Alex, a verdadeira protagonista e o coração da narrativa.
Sendo uma jovem órfã de rua considerada a herdeira perdida do trono de Troia, Alex é a peça vital que tem de atravessar uma paisagem devastada pela guerra até ao seu lugar de direito como Imperatriz, sendo a única esperança para unir uma igreja fragmentada.
O que se segue é uma aventura fantástica repleta de ação, sangue, lama e o humor negro e sarcástico que já se tornou a imagem de marca de Abercrombie. No verdadeiro estilo do autor, os personagens são deliciosamente exagerados.
A dinâmica de grupo reflete os papéis clássicos de uma equipa de assaltantes, com cada membro a inspirar-se em arquétipos do terror. Temos Vigga, a lobisomem feroz e desinibida, que funciona simultaneamente como a força bruta e a bomba-relógio do grupo. Tem uma presença física avassaladora, lembrando de imediato o Coisa do Quarteto Fantástico ou o Fera dos X-Men.
O Baron Rikard é o vampiro ancestral e teatral, uma fusão gloriosa entre a elegância gótica de Vincent Price e a excentricidade do icónico Red Guy de Cow and Chicken. A sua etiqueta inabalável adiciona um toque bizarro de civilidade enquanto o grupo espalha o caos.
O grupo conta ainda com Balthazar, o necromante rabugento (e ai de quem lhe chamar "feiticeiro"), extremamente orgulhoso de ser o terceiro melhor da Europa e com a energia cómica de um autêntico Iznogoud que quer ser sultão no lugar do sultão.
Jakob é o imortal centenário, movido por uma dedicação quase estoica ao trabalho, Sunny, uma elfa de temperamento ameno que, apesar do seu povo poder estar em guerra com o império, consegue manter a esperança num mundo que teme a sua espécie, e, a fechar este elenco disfuncional, surge Baptiste, uma malandra perita em sobrevivência, com habilidades versáteis que lhe permitem adaptar-se a qualquer tarefa que lhe apareça à frente.
Os primeiros capítulos são quase perfeitos na forma como introduzem as personagens, a dinâmica e o conflito. No entanto, o andamento fica lento e, embora Abercrombie escreva sequências de batalha brutais e cheias de adrenalina, a sua abundância no meio da narrativa acabou por prejudicar o ritmo do livro.
Contudo, quando a ação resulta, é imbatível. Abercrombie deita por terra qualquer romantismo da fantasia épica. Na cena em que Jakob mergulha num combate caótico e claustrofóbico contra os elfos (aqui descritos não como seres elegantes à la Tolkien, mas como fantasmas envenenados na floresta), a sensação é a de estar preso num mosh pit de pura violência e desespero. O momento em que Jakob liberta a espada e grita "Matem-nos a todos!" pede, a plenos pulmões, a urgência niilista de Beat the Bastards dos The Exploited como banda sonora para o caos.
Por baixo das nódoas de sangue e da comédia escatológica, o livro esconde armadilhas narrativas brilhantes e uma surpreendente profundidade.
Há uma cena magistral entre Vigga e o Baron Rikard que começa como pura comédia física, com uma ressaca num estábulo e uma troca de farpas infantis, para subitamente evoluir para um debate profundo sobre o livre-arbítrio.
Vigga, com toda a sua brutalidade honesta, é a bússola moral do grupo: ela escolhe quando libertar o lobo, mantendo-se limpa por dentro. Rikard, por sua vez, deita por terra a sua pose aristocrática num murmúrio final ao desejar ser, também ele, limpo. É a constatação trágica de que ele, ao contrário de Vigga, é escravo da sua própria monstruosidade.
A subtil reinterpretação de Caronte através do barqueiro Marangon é outro detalhe delicioso. Em forte contraste com o falador, cínico e trocista Diabo que encontramos no Auto da Barca do Inferno de Gil Vicente, o Marangon de Abercrombie rege-se por um estoicismo cego. É um homem prático, calado, que exibe uma indiferença total perante o absurdo, limitando-se a remar num mundo em ruínas.
A obra brilha ainda numa comparação muito atual. Quando o Irmão Diaz reflete sobre a máxima do Cardeal Zizka — "por vezes é preciso usar as armas do inimigo, mas se os justos descem tão baixo, o que os separa dos perversos?" —, é impossível não traçar um paralelismo direto com o atual combate aos populismos no mundo. Se os moderados abdicarem dos seus valores para descer à lama e usar a retórica extremista dos seus adversários, as linhas institucionais e éticas apagam-se. A vitória técnica transforma-se numa derrota civilizacional.
Não vale a pena perder demasiado tempo a dissecar se a obra é perfeita em todos os seus andamentos pois qualquer livro que agarre a atenção, faça o leitor devorar as páginas até ao fim e o deixe à espera de mais aventuras, cumpre o seu propósito.
Como escrito no livro: "Se esperas que tudo esteja perfeito, nunca farás nada". Abercrombie não entregou a obra perfeita, mas entregou uma viagem caótica, sangrenta, reflexiva e incrivelmente divertida. E isso já é muito bom. Venha o segundo capitulo e o filme !

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