19.° Crônica de um Surfista de Meia Idade: Quando o Céu cai sobre a cabeça (e saímos a contar os segundos)
Sou daqueles que vai para a praia ver os relâmpagos caírem sobre o mar. Se for uma tempestade seca, de noite e no verão, confesso que fico estarrecido a olhar para o horizonte.
É um fascínio antigo, trazido desde pequeno — quer no Furadouro, no paredão da zona sul, ou em Cortegaça, na zona dos palheiros — onde me sentava a ver os trovões estalarem e a escutar o estrondo, a aguardar até que, passado umas horas, viessem chamar-me pela orelha para recolher a casa, com aquela velha convicção infantil de que o céu nos podia cair a qualquer momento sobre a cabeça.
Contudo, e apesar dessa atração de infância pelos elementos, sempre tive muito cuidado dentro de água, monitorizando as contas e sabendo o momento exato de sair quando o céu se aperta.
O que atrai os surfistas às tempestades não é o gosto pelo perigo gratuito, nem a ânsia de desafiar a física em nome de qualquer heroísmo de celulóide.
A resposta vive na própria génese do oceano: a tempestade é, em simultâneo, a mãe da onda perfeita e a sua ameaça mais implacável.
Enquanto o comum dos mortais foge do vento forte, do céu de chumbo e da queda abrupta da pressão barométrica, o surfista reconhece nesses sinais a promessa de energia pura a caminho da costa. Existe uma atração quase atávica pelo caos atmosférico, alimentada pela certeza de que o melhor swell nasce sempre da violência de uma frente fria.
Essa obsessão pelo rasto das tempestades encontrou a sua montra mais mediática nos ecrãs através de projetos emblemáticos como a série documental de 2008 e o aclamado filme de 2012 protagonizados por Tom Carroll e Ross Clarke-Jones.
Nesses registos, acompanhados pela ciência cirúrgica do meteorologista Ben Matson, o conceito de storm surfing é levado ao limite absoluto, mostrando os pioneiros a caçar sistemas de baixa pressão em alto mar à procura de lajes titânicas e montanhas de água.
No entanto, há um abismo intransponível entre o heroísmo cinematográfico de quem navega de jet ski para o meio do oceano em busca da tempestade perfeita e a realidade nua e crua de uma sessão matinal num areal português.
Foi exatamente isso que aconteceu na Praia da Bonança.
Eram trinta pessoas na água — um número invulgar para a serenidade habitual de uma sessão matinal às 06h/07h — presas àquela anestesia boa de uma boa hora de surf.
A progressão foi matemática e fria: em vez da fuga caótica ou do pânico de quem abandona o navio, instalou-se a contagem ponderada dos segundos para calcular a distância do raio, o olho atento ao céu a fechar-se em cinzento e a decisão gradual de rumar para terra.
A grande ironia é que o surfista passa a vida a procurar a tempestade lá ao longe, a desenhar o milagre da ondulação. Só que, quando a trovoada decide retribuir a visita e desaba a poucos quilómetros da rebentação, o idílio do grande ecrã desvanece-se.
O mar deixa de ser o parque de diversões onde se colecionam manobras e recupera, de um golpe, a sua velha e temível autoridade através da física implacável dos elementos. E o perigo, infelizmente, não é uma abstração teórica: tragédias como a morte da jovem surfista e campeã brasileira Luzimara Souza, atingida por um relâmpago enquanto treinava, servem de lembrança sombria de que o mar sob tempestade elétrica não tolera facilitismos.
Estar na água durante uma tempestade elétrica não é apenas arriscado; é colocar-se voluntariamente no pior cenário possível perante uma descarga de milhões de volts.
Vários fatores combinam-se para transformar o surfista num alvo de alto risco, a começar pela condutividade extraordinária da água salgada. Um raio que caia a dezenas de metros de distância não se limita a atingir o ponto de impacto isolado, uma vez que a energia se propaga radialmente pela superfície da água, podendo afetar ou incapacitar múltiplos praticantes em simultâneo, mesmo sem contacto direto.
Na imensidão plana do oceano, a cabeça e o tronco do surfista — muitas vezes sobre uma prancha de fibra de vidro e com componentes metálicos — destacam-se inevitavelmente como pontos de relevo altamente vulneráveis. A este cenário soma-se o perigoso mito da distância, já que um dos erros mais comuns é assumir falsas garantias de segurança só porque a trovoada parece longínqua, sabendo-se que os relâmpagos podem atingir o solo a uma dezena de quilómetros do núcleo visível da tempestade, surgindo muitas vezes em áreas totalmente livres de precipitação.
Para mitigar este perigo invisível, a meteorologia e as normas de segurança civil sistematizam o comportamento de autodefesa através de métricas precisas. Ao contrário do que muitos pensam, o cálculo matemático é exatamente esse: como a luz do relâmpago viaja quase instantaneamente (a cerca de 300.000 quilómetros por segundo) e o som do trovão se propaga muito mais devagar (a uma velocidade de aproximadamente 340 metros por segundo no ar), basta contar o número de segundos entre o clarão e o estrondo e multiplicar esse valor por 340 metros (ou dividir os segundos por 3 para obter o resultado diretamente em quilómetros).
Por exemplo, se passarem dez segundos, a descarga caiu a cerca de 3.400 metros (3,4 quilómetros) de distância.
As diretrizes internacionais ditam que, se o intervalo for inferior a trinta segundos (o equivalente a cerca de dez quilómetros), a fronteira crítica foi ultrapassada e impõe-se abandonar imediatamente o mar, só devendo retomar-se a atividade trinta minutos após o registo do último estrondo.
No ordenamento jurídico e operacional português, a segurança balnear rege-se pelos Editais de Praia das Capitanias dos Portos, que conferem total autoridade à Polícia Marítima e aos nadadores-salvadores para ordenar a evacuação imediata perante o risco de trovoada.
Contudo, a realidade do surf fora da época balnear ou dos horários de vigilância é marcada por um vazio operacional onde não existem bandeiras nem nadadores-salvadores para gerir a ordem pública. Nesses momentos, o sistema formal de proteção civil desvanece-se por completo, transferindo a cem por cento a responsabilidade da decisão para o livre-arbítrio, a prudência e o conhecimento técnico do próprio praticante.
Se o surfista for surpreendido em terra ou sem um abrigo estruturado seguro, como um edifício fechado ou um veículo com os vidros levantados, deve cumprir rigorosamente as normas de conduta de emergência:
- afastar-se de vedações metálicas, postes ou zonas de água parada, nunca se abrigar debaixo de árvores isoladas ou falésias rochosas e, caso o perigo seja iminente e não exista abrigo, adotar a posição de segurança em terra firme, agachando-se com os pés juntos, as mãos nos joelhos e a cabeça baixa para minimizar a superfície de contacto com o solo sem nunca se esticar de barriga para o chão.
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