O encontro com os Twin Temple revelou um projeto que desafia convenções e retira o ouvinte da sua zona de conforto, pois a sonoridade desta dupla assemelha-se à banda sonora de um baile de finalistas de 1963 que sofreu a invasão de um culto.
A base musical remete de imediato para a editora Motown, para as produções de Phil Spector, Diana Ross e para a soul e o doo-wop da década de 1960, pelo que tive de estabelecer paralelismos com a estética de Amy Winehouse, o rock cru de bandas como os Dirtbombs, ao mesmo tempo que traz a nostalgia do "Do you remember rock 'n' roll radio?" dos Ramones.
A sonoridade incorpora ainda guitarras com recurso a reverb, típicas do surf rock e do western, criando uma atmosfera cinematográfica e noir que partilha referências instrumentais com projetos como Dead Combo e Calexico com uma mistura que tem raízes latinas - em diversos estilos musicais - e audíveis na interpretação em espanhol do tema "Tengamos La Orgía Satánica".
Os Twin Temple são formados por um casal, uma dinâmica que contraria a premissa de Lemmy Kilmister de que o rock seria uma atividade para solteiros. Até porque a história da música comprova que as bandas formadas por casais demonstram uma intimidade, uma partilha colaborativa e uma cumplicidade estruturais em palco.
O Estereopositivo tem abordado vários exemplos desta realidade, como é o caso dos White Stripes e dos Cramps, onde existe uma forte ligação colaborativa entre os pares e, onde em alguns casos, as mulheres assumem uma preponderância maior.
É o que acontece de forma clara com a liderança de Poison Ivy nos Cramps e com os Twin Temple como se pode ouvir no tema "Satan is a Woman".
No que diz respeito à imagem, a banda apresenta uma forte componente teatral e utiliza o humor para definir o seu conceito, rotulado de "Satanic Doo-Wop". O duo afirma, com ironia, que todos os rumores sobre beberem sangue de virgens ou sacrificarem animais são inteiramente verdadeiros.
Este imaginário, adotado igualmente por bandas como os Ghost (com os quais os Twin Temple partilham frequentemente digressões), constitui essencialmente um ato performativo e extravagante.
Contudo, a relação da religião com a música pesada é complexa pois a utilização de uma estética ligada ao oculto não anula a ligação ao divino que vários músicos mantêm na esfera privada.
Tom Araya, vocalista e baixista dos Slayer, é católico praticante e já referiu publicamente acreditar nos ensinamentos de Cristo sobre o amor e a aceitação mútua.
De igual forma, nos Black Sabbath, o guitarrista Tony Iommi não só assume a sua fé católica, como chegou a estrear uma obra coral na Catedral de Birmingham inspirada num Salmo da Bíblia, enquanto o baixista Geezer Butler foi criado na mesma fé.
A própria figura central da banda, Ozzy Osbourne, identificou-se como cristão ao longo da vida, rejeitando sempre o rótulo de satanista, ao ponto de ser conhecido por encerrar os seus concertos pedindo a bênção de Deus para o público.
Sem falar na poetisa do Punk , Patti Smith, que, além de Católica, partilha a mesma origem geográfica com o Papa Leão X.
Por isso, quando falamos do Satanismo dos Twin Temple, é uma crença de que a sociedade atual carece de rituais, de magia e de se deve incentivar as pessoas a não terem medo de expressar a sua identidade e as suas convicções.
A regra essencial é: sejam vocês mesmos.
Esta postura partilha a atitude basilar do punk e do próprio Lemmy: quem gosta, gosta; quem não gosta, paciência. Apesar da diversidade de influências, a dupla recusa que a sua música seja limitada por subgéneros.
No final, o que interessa, é que é apenas rock and roll e eu gosto !

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