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(Texto publicado na Surf Total) |
Comecei a prestar mais atenção ao surf de competição ali por volta do ano 2000. Na altura, o meu interesse em perceber como funcionavam as baterias era tanto que decidi fazer uma formação da Federação Portuguesa de Surf para ser juiz, tendo, para esse efeito estado federado pelo saudoso Sport Comercio e Salgueiros.
Queria entender a fundo o que se passava dentro de água e como se pontuava cada manobra. Infelizmente, com o aumento das responsabilidades profissionais, o tempo começou a escassear e a prancheta acabou por ter de ficar na gaveta.
Mas, olhando hoje para a forma como o surf é gerido e avaliado, percebo perfeitamente por que razão a modalidade tem tanta dificuldade em furar a bolha e chegar ao grande público.
Quem está em casa, no sofá, a
ver um jogo de futebol, basquetebol ou andebol, consegue acompanhar a ação de
forma muito intuitiva. Há regras claras, balizas ou cestos, um relógio a contar
e uma continuidade lógica que qualquer leigo entende. No surf, a história é
completamente diferente. O desporto tornou-se de tal forma complexo para quem
está de fora que é muito difícil para o espectador comum compreender o que se
está a passar.
Tendo este problema sido
agravado com a própria política de transmissões da WSL onde, praticamente,
todos os comentadores estão proibidos de criticar ou debater as notas dos
juízes. Algo que custou os lugares de Martin Potter ou de Barton Lynch. Se quem
esta na emissão a tentar explicar o desporto não pode questionar ou dissecar
uma nota, a avaliação torna-se mais complexa e afasta o espectador não
familiarizado com o desporto.
Atenção, eu reconheço que há
mérito em algumas das recentes alterações feitas no circuito mundial. O
polémico corte de atletas a meio da época ou a introdução das finais decididas
num único dia têm, de facto, um lado muito positivo: aumentam imenso a
espetacularidade e a tensão competitiva. Só que, ao fazer isto sem resolver o
problema de base, o surf continua a falhar redondamente na captação de novos
adeptos.
E a razão é simples: a avaliação
do desporto está de tal maneira codificada que se torna indecifrável para o
público não praticante. Aquela pessoa que, num domingo à tarde, até estaria
disposta a acompanhar uma competição na televisão, acaba por mudar de canal
porque pura e simplesmente não consegue perceber por que motivo a onda de um
atleta valeu um 8.5 e a do adversário ficou-se por um 6.0. Sem clareza, não há
ligação emocional. Sem ligação, não se ganham novos fãs.
É exatamente por causa deste
problema de comunicação que olho com bons olhos para as notícias recentes
vindas da Austrália. Ao contrário daqueles que torceram o nariz, concordo com a
ideia por trás da nova Surfing Super League (SSL). Ao tentarem criar um formato
com equipas, horários de transmissão fixos e regras mastigadas, inspirando-se
na orgânica dos desportos de massas, estão a tentar desatar um nó de décadas.
Em vez de complicarem o surf, estão finalmente a tentar traduzi-lo para a
linguagem de quem está em casa.
Para percebermos o que está em
causa, temos de olhar objetivamente para o que os australianos pretendem fazer
arrancar no verão de 2028. A SSL não é apenas mais um campeonato; é uma
tentativa de revolucionar por completo a forma como consumimos este desporto,
formatando-o para que qualquer pessoa consiga acompanhar.
O primeiro grande tabu que a SSL
quebra é o do calendário. Quem acompanha o surf sabe que os campeonatos vivem
reféns dos chamados waiting periods (períodos de espera pelas melhores
condições do mar). Isso é poético para os puristas, mas é um pesadelo para as
televisões e para o espectador casual, que nunca sabe ao certo a que horas ou
em que dia a prova vai para a água. A nova liga acaba com isso. Durante oito
semanas, a competição tem horários fixos: sábados e domingos, entre as 16h00 e
as 18h00. Chova ou faça sol, o mar pode não estar épico, mas quem liga a
televisão sabe que o "jogo" vai acontecer.
E por falar em "jogo",
a própria orgânica das baterias (os heats) desaparece para dar lugar a
um formato que qualquer adepto de futebol ou andebol reconhece. Cada confronto
direto entre duas equipas dura exatamente 90 minutos, divididos em duas partes
de 40 minutos, com direito a um intervalo de 10 minutos pelo meio. E para
simplificar a matemática de quem está no sofá, a pontuação é direta: conta
apenas a melhor onda de cada surfista. Simples, rápido e fácil de perceber quem
está a ganhar e quem está a perder.
Outra mudança radical é o
conceito de equipas regionais, as chamadas franquias, muito à semelhança do que
acontece na NBA norte-americana. Serão oito equipas (como, por exemplo, a da
Gold Coast ou a de Melbourne), criando de imediato uma rivalidade geográfica
que puxa pelos adeptos locais. Em vez de torcerem por um atleta isolado, as
pessoas passam a apoiar a sua equipa.
Os plantéis destas equipas serão
compostos por seis surfistas — quatro homens e duas mulheres. E aqui a
organização teve uma ideia brilhante: os plantéis vão misturar lendas do
desporto (ex-campeões), atletas de elite atuais e os chamados free surfers
(surfistas muito populares pelo seu estilo, mas que normalmente não competem).
Para selar este pacote de
modernidade, a SSL resolveu logo à partida um dos temas mais fraturantes do
desporto moderno: a igualdade salarial. Durante as oito semanas da liga, todos
os atletas contratados — sejam lendas masculinas ou jovens talentos femininos —
vão receber exatamente o mesmo salário base: cerca de 89 mil dólares
australianos.
Em suma, o que a Austrália se
prepara para fazer em 2028 é pegar num desporto de nicho, com regras
encriptadas e horários imprevisíveis, e transformá-lo num espetáculo de massas,
empacotado para a família inteira ver ao fim de semana.
Para lá da paixão pelas ondas e da
tentativa de simplificar as regras para o público, há que olhar de forma
pragmática para os números. Afinal, o que motiva esta revolução tão radical?
A resposta está na imensa
economia do surf na Austrália, que atualmente está avaliada nuns impressionantes
2,7 mil milhões de dólares anuais. Apesar da dimensão colossal deste mercado, o
surf de competição sempre teve enormes dificuldades em captar o grande
investimento comercial, ficando a léguas de desportos de massas australianos
como o rugby ou o futebol australiano.
O que a organização da SSL
percebeu foi que, para transformar o surf num produto verdadeiramente rentável,
tinha de eliminar o seu maior defeito aos olhos dos investidores: a
imprevisibilidade. Ao fechar um contrato histórico com uma das maiores redes de
televisão do país, garantindo horários fixos no ecrã, a liga deu finalmente às
grandes marcas e aos anunciantes a garantia de que as suas campanhas serão
vistas num momento exato, sem depender dos caprichos do vento ou da maré.
Mas o rasgo de genialidade
financeira desta nova liga vai muito além dos direitos televisivos. O que torna
este projeto um íman para fundos de investimento é a adoção do modelo de
"franquias". Ao criar oito equipas regionais blindadas, a liga vai
permitir, no futuro, a venda destas equipas a donos privados. Junte-se a isto o
conceito de "surf de estádio" — com a venda de milhares de bilhetes
para as praias, áreas de hospitalidade VIP, patrocínios exclusivos para cada
equipa (algo inédito no surf) e a venda desenfreada de merchandising —,
e percebemos rapidamente que esta liga não é apenas uma mudança de regras.
Toda esta conversa sobre os
milhões australianos e a criação de ligas milionárias obriga-nos,
inevitavelmente, a olhar para o nosso próprio quintal. Como se traduz esta
febre comercial na realidade nacional?
É evidente que Portugal não tem
a escala oceânica nem a dimensão do mercado da Austrália, mas desengane-se quem
pensa que, no nosso país, o surf ainda é apenas um desporto de nicho praticado
por meia dúzia de idealistas em carrinhas pão-de-forma. As nossas ondas
transformaram-se num autêntico motor de desenvolvimento regional.
Os estudos económicos mais
recentes apontam para que a economia do surf em Portugal valha confortavelmente
mais de 400 milhões de euros por ano. Aliás, dados recentes mostram que só as
provas mundiais na região do Oeste movimentaram cerca de 23 milhões de euros (e
7 milhões em impostos) em 2024.
E não é só no centro do país com
o mediatismo dos campeonatos mundiais: a norte, mesmo fora do circuito
internacional, estimativas apontam que as mais de 200 mil visitas anuais de
surfistas à Praia de Matosinhos geram receitas agregadas na economia local na
ordem dos 20 milhões de euros.
Estes números mostram que o surf
já é uma indústria pesada em Portugal. A grande questão que se levanta é o que
queremos fazer com este crescimento.
Perante o peso económico
inegável que o surf já tem em Portugal, a pergunta impõe-se: e se quiséssemos
dar o salto e aplicar o formato desta nova liga australiana por cá?
A primeira regra de ouro seria a
adaptação à nossa escala. Não temos uma indústria de milhões australianos,
logo, os números teriam obrigatoriamente de ser mais modestos.
Contudo, a premissa principal
manter-se-ia: garantir contratos fixos para os atletas durante a duração da
prova. Para muitos surfistas portugueses de elite, que passam o ano a fazer
ginástica financeira e dependentes da boa vontade de um ou dois patrocinadores,
ter um salário base garantido durante um mês de liga fechada, seria revolucionário.
Para a televisão, a criação de
franquias assentaria que nem uma luva no nosso bairrismo natural. Imaginem o
potencial de audiência, num domingo à tarde, ao vermos uma equipa do
"Norte" a defrontar a equipa da "Linha de Cascais" ou do "Oeste".
A rivalidade geográfica atrairia de imediato o público que entende
perfeitamente o conceito de "nós contra eles" num jogo de 90 minutos.
A grande questão logística, e
talvez o nosso maior obstáculo, seria o calendário: fazemos isto no verão ou no
inverno?
Quem surfa sabe perfeitamente
que a nossa verdadeira época de ondas, aquelas que mostram a potência da nossa
costa, vai de outubro a março. O problema é que o conceito de "estádio de
praia" — com bancadas, venda de bilhetes e famílias a assistir —
dificilmente sobrevive aos nossos invernos rigorosos. Além disso, o mar de
inverno consegue ser tão agreste que inviabilizaria a segurança dos atletas,
destruindo a promessa do "horário fixo" televisivo.
A solução de compromisso ideal
seria apontar esta "Super Liga" portuguesa para a nossa época
dourada: os meses de setembro e outubro. É aquela janela mágica em que os
primeiros grandes swells começam a encostar, mas o tempo ainda convida a
um ambiente de festival no areal. Em alternativa, se a escolha recaísse
puramente no pico do verão por exigências de audiências e turismo, o paradigma
do surf teria de mudar. Com mar pequeno, o foco passaria para o surf
progressivo e os aéreos. O oceano transformar-se-ia num autêntico skatepark
aquático para a televisão.
Mas e o circuito nacional que já
temos? Acaba-se com ele?
A resposta é um redondo
"não". A importação deste conceito nunca deveria substituir a Liga organizada
pela Associação Nacional de Surfistas ou os restantes circuitos organizados
pela Federação Portuguesa de Surf.
O circuito tradicional
continuaria a existir como a base purista do desporto, premiando a regularidade
e coroando os campeões nacionais nas melhores ondas de inverno. A nova
"Liga de Equipas", por seu lado, funcionaria como um complemento de
meia-estação ou de verão, desenhada para o grande público e para o investimento
das marcas.
No fundo, é possível modernizar
a montra sem vender a alma do desporto. Se a máquina corporativa ficar
confinada a essas poucas semanas de espetáculo televisivo, sobram todos os
outros dias do ano para os puristas.
E para nós, surfistas de meia-idade, continuará a haver espaço para pegarmos no longboard e remarmos para o line-up de Ofir, Aguçadoura ou Esposende, longe de cronómetros, regras encriptadas e transmissões em direto, onde o único critério que realmente importa é a paz que uma boa onda nos traz.

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