20.ª Crônica de um Surfista de Meia Idade: Descodificar a competição com uma solução australiana

 

(Texto publicado na Surf Total)


Comecei a prestar mais atenção ao surf de competição ali por volta do ano 2000. Na altura, o meu interesse em perceber como funcionavam as baterias era tanto que decidi fazer uma formação da Federação Portuguesa de Surf para ser juiz, tendo, para esse efeito estado federado pelo saudoso Sport Comercio e Salgueiros. 

Queria entender a fundo o que se passava dentro de água e como se pontuava cada manobra. Infelizmente, com o aumento das responsabilidades profissionais, o tempo começou a escassear e a prancheta acabou por ter de ficar na gaveta.

Mas, olhando hoje para a forma como o surf é gerido e avaliado, percebo perfeitamente por que razão a modalidade tem tanta dificuldade em furar a bolha e chegar ao grande público.

Quem está em casa, no sofá, a ver um jogo de futebol, basquetebol ou andebol, consegue acompanhar a ação de forma muito intuitiva. Há regras claras, balizas ou cestos, um relógio a contar e uma continuidade lógica que qualquer leigo entende. No surf, a história é completamente diferente. O desporto tornou-se de tal forma complexo para quem está de fora que é muito difícil para o espectador comum compreender o que se está a passar.

Tendo este problema sido agravado com a própria política de transmissões da WSL onde, praticamente, todos os comentadores estão proibidos de criticar ou debater as notas dos juízes. Algo que custou os lugares de Martin Potter ou de Barton Lynch. Se quem esta na emissão a tentar explicar o desporto não pode questionar ou dissecar uma nota, a avaliação torna-se mais complexa e afasta o espectador não familiarizado com o desporto.

Atenção, eu reconheço que há mérito em algumas das recentes alterações feitas no circuito mundial. O polémico corte de atletas a meio da época ou a introdução das finais decididas num único dia têm, de facto, um lado muito positivo: aumentam imenso a espetacularidade e a tensão competitiva. Só que, ao fazer isto sem resolver o problema de base, o surf continua a falhar redondamente na captação de novos adeptos.

E a razão é simples: a avaliação do desporto está de tal maneira codificada que se torna indecifrável para o público não praticante. Aquela pessoa que, num domingo à tarde, até estaria disposta a acompanhar uma competição na televisão, acaba por mudar de canal porque pura e simplesmente não consegue perceber por que motivo a onda de um atleta valeu um 8.5 e a do adversário ficou-se por um 6.0. Sem clareza, não há ligação emocional. Sem ligação, não se ganham novos fãs.

É exatamente por causa deste problema de comunicação que olho com bons olhos para as notícias recentes vindas da Austrália. Ao contrário daqueles que torceram o nariz, concordo com a ideia por trás da nova Surfing Super League (SSL). Ao tentarem criar um formato com equipas, horários de transmissão fixos e regras mastigadas, inspirando-se na orgânica dos desportos de massas, estão a tentar desatar um nó de décadas. Em vez de complicarem o surf, estão finalmente a tentar traduzi-lo para a linguagem de quem está em casa.

Para percebermos o que está em causa, temos de olhar objetivamente para o que os australianos pretendem fazer arrancar no verão de 2028. A SSL não é apenas mais um campeonato; é uma tentativa de revolucionar por completo a forma como consumimos este desporto, formatando-o para que qualquer pessoa consiga acompanhar.

O primeiro grande tabu que a SSL quebra é o do calendário. Quem acompanha o surf sabe que os campeonatos vivem reféns dos chamados waiting periods (períodos de espera pelas melhores condições do mar). Isso é poético para os puristas, mas é um pesadelo para as televisões e para o espectador casual, que nunca sabe ao certo a que horas ou em que dia a prova vai para a água. A nova liga acaba com isso. Durante oito semanas, a competição tem horários fixos: sábados e domingos, entre as 16h00 e as 18h00. Chova ou faça sol, o mar pode não estar épico, mas quem liga a televisão sabe que o "jogo" vai acontecer.

E por falar em "jogo", a própria orgânica das baterias (os heats) desaparece para dar lugar a um formato que qualquer adepto de futebol ou andebol reconhece. Cada confronto direto entre duas equipas dura exatamente 90 minutos, divididos em duas partes de 40 minutos, com direito a um intervalo de 10 minutos pelo meio. E para simplificar a matemática de quem está no sofá, a pontuação é direta: conta apenas a melhor onda de cada surfista. Simples, rápido e fácil de perceber quem está a ganhar e quem está a perder.

Outra mudança radical é o conceito de equipas regionais, as chamadas franquias, muito à semelhança do que acontece na NBA norte-americana. Serão oito equipas (como, por exemplo, a da Gold Coast ou a de Melbourne), criando de imediato uma rivalidade geográfica que puxa pelos adeptos locais. Em vez de torcerem por um atleta isolado, as pessoas passam a apoiar a sua equipa.

Os plantéis destas equipas serão compostos por seis surfistas — quatro homens e duas mulheres. E aqui a organização teve uma ideia brilhante: os plantéis vão misturar lendas do desporto (ex-campeões), atletas de elite atuais e os chamados free surfers (surfistas muito populares pelo seu estilo, mas que normalmente não competem).

Para selar este pacote de modernidade, a SSL resolveu logo à partida um dos temas mais fraturantes do desporto moderno: a igualdade salarial. Durante as oito semanas da liga, todos os atletas contratados — sejam lendas masculinas ou jovens talentos femininos — vão receber exatamente o mesmo salário base: cerca de 89 mil dólares australianos.

Em suma, o que a Austrália se prepara para fazer em 2028 é pegar num desporto de nicho, com regras encriptadas e horários imprevisíveis, e transformá-lo num espetáculo de massas, empacotado para a família inteira ver ao fim de semana.

Para lá da paixão pelas ondas e da tentativa de simplificar as regras para o público, há que olhar de forma pragmática para os números. Afinal, o que motiva esta revolução tão radical?

A resposta está na imensa economia do surf na Austrália, que atualmente está avaliada nuns impressionantes 2,7 mil milhões de dólares anuais. Apesar da dimensão colossal deste mercado, o surf de competição sempre teve enormes dificuldades em captar o grande investimento comercial, ficando a léguas de desportos de massas australianos como o rugby ou o futebol australiano.

O que a organização da SSL percebeu foi que, para transformar o surf num produto verdadeiramente rentável, tinha de eliminar o seu maior defeito aos olhos dos investidores: a imprevisibilidade. Ao fechar um contrato histórico com uma das maiores redes de televisão do país, garantindo horários fixos no ecrã, a liga deu finalmente às grandes marcas e aos anunciantes a garantia de que as suas campanhas serão vistas num momento exato, sem depender dos caprichos do vento ou da maré.

Mas o rasgo de genialidade financeira desta nova liga vai muito além dos direitos televisivos. O que torna este projeto um íman para fundos de investimento é a adoção do modelo de "franquias". Ao criar oito equipas regionais blindadas, a liga vai permitir, no futuro, a venda destas equipas a donos privados. Junte-se a isto o conceito de "surf de estádio" — com a venda de milhares de bilhetes para as praias, áreas de hospitalidade VIP, patrocínios exclusivos para cada equipa (algo inédito no surf) e a venda desenfreada de merchandising —, e percebemos rapidamente que esta liga não é apenas uma mudança de regras.

Toda esta conversa sobre os milhões australianos e a criação de ligas milionárias obriga-nos, inevitavelmente, a olhar para o nosso próprio quintal. Como se traduz esta febre comercial na realidade nacional?

É evidente que Portugal não tem a escala oceânica nem a dimensão do mercado da Austrália, mas desengane-se quem pensa que, no nosso país, o surf ainda é apenas um desporto de nicho praticado por meia dúzia de idealistas em carrinhas pão-de-forma. As nossas ondas transformaram-se num autêntico motor de desenvolvimento regional.

Os estudos económicos mais recentes apontam para que a economia do surf em Portugal valha confortavelmente mais de 400 milhões de euros por ano. Aliás, dados recentes mostram que só as provas mundiais na região do Oeste movimentaram cerca de 23 milhões de euros (e 7 milhões em impostos) em 2024.

E não é só no centro do país com o mediatismo dos campeonatos mundiais: a norte, mesmo fora do circuito internacional, estimativas apontam que as mais de 200 mil visitas anuais de surfistas à Praia de Matosinhos geram receitas agregadas na economia local na ordem dos 20 milhões de euros.

Estes números mostram que o surf já é uma indústria pesada em Portugal. A grande questão que se levanta é o que queremos fazer com este crescimento.

Perante o peso económico inegável que o surf já tem em Portugal, a pergunta impõe-se: e se quiséssemos dar o salto e aplicar o formato desta nova liga australiana por cá?

A primeira regra de ouro seria a adaptação à nossa escala. Não temos uma indústria de milhões australianos, logo, os números teriam obrigatoriamente de ser mais modestos.

Contudo, a premissa principal manter-se-ia: garantir contratos fixos para os atletas durante a duração da prova. Para muitos surfistas portugueses de elite, que passam o ano a fazer ginástica financeira e dependentes da boa vontade de um ou dois patrocinadores, ter um salário base garantido durante um mês de liga fechada, seria revolucionário.

Para a televisão, a criação de franquias assentaria que nem uma luva no nosso bairrismo natural. Imaginem o potencial de audiência, num domingo à tarde, ao vermos uma equipa do "Norte" a defrontar a equipa da "Linha de Cascais" ou do "Oeste". A rivalidade geográfica atrairia de imediato o público que entende perfeitamente o conceito de "nós contra eles" num jogo de 90 minutos.

A grande questão logística, e talvez o nosso maior obstáculo, seria o calendário: fazemos isto no verão ou no inverno?

Quem surfa sabe perfeitamente que a nossa verdadeira época de ondas, aquelas que mostram a potência da nossa costa, vai de outubro a março. O problema é que o conceito de "estádio de praia" — com bancadas, venda de bilhetes e famílias a assistir — dificilmente sobrevive aos nossos invernos rigorosos. Além disso, o mar de inverno consegue ser tão agreste que inviabilizaria a segurança dos atletas, destruindo a promessa do "horário fixo" televisivo.

A solução de compromisso ideal seria apontar esta "Super Liga" portuguesa para a nossa época dourada: os meses de setembro e outubro. É aquela janela mágica em que os primeiros grandes swells começam a encostar, mas o tempo ainda convida a um ambiente de festival no areal. Em alternativa, se a escolha recaísse puramente no pico do verão por exigências de audiências e turismo, o paradigma do surf teria de mudar. Com mar pequeno, o foco passaria para o surf progressivo e os aéreos. O oceano transformar-se-ia num autêntico skatepark aquático para a televisão.

Mas e o circuito nacional que já temos? Acaba-se com ele?

A resposta é um redondo "não". A importação deste conceito nunca deveria substituir a Liga organizada pela Associação Nacional de Surfistas ou os restantes circuitos organizados pela Federação Portuguesa de Surf.

O circuito tradicional continuaria a existir como a base purista do desporto, premiando a regularidade e coroando os campeões nacionais nas melhores ondas de inverno. A nova "Liga de Equipas", por seu lado, funcionaria como um complemento de meia-estação ou de verão, desenhada para o grande público e para o investimento das marcas.

No fundo, é possível modernizar a montra sem vender a alma do desporto. Se a máquina corporativa ficar confinada a essas poucas semanas de espetáculo televisivo, sobram todos os outros dias do ano para os puristas.

E para nós, surfistas de meia-idade, continuará a haver espaço para pegarmos no longboard e remarmos para o line-up de Ofir, Aguçadoura ou Esposende, longe de cronómetros, regras encriptadas e transmissões em direto, onde o único critério que realmente importa é a paz que uma boa onda nos traz.

Comentários