Na família da minha mãe há uma ligação antiga à música, daquelas marcas que atravessam gerações e que, pelo que me contam, já existiam muito antes do meu avô Manel.
O sangue não engana, mas a verdade é que distribui os talentos à sua maneira.
Ao contrário dos meus irmãos, nunca tive a paciência ou o jeito para aprender a tocar um instrumento.
O Miguel e o Ricardo tornaram-se músicos de mão cheia, cada um no seu caminho, e digo-o com o orgulho de quem assiste da primeira fila.
Da minha parte, ficou a paixão pelo outro lado da barricada: o prazer de escutar com atenção, de procurar discos novos, de falar horas a fio sobre canções e de guardar tudo na memória.
Por isso mesmo, costumo dizer que o meu cérebro funciona como uma caixa de ressonância onde as notas e as recordações andam sempre juntas, alimentadas pela mesma cumplicidade que nos juntava em miúdos.
Lembro-me bem das manhãs de sábado em frente à televisão a ver desenhos animados, das correrias atrás do cão, das pequenas rivalidades desfeitas em gargalhadas logo a seguir e daquela recusa silenciosa em levar o mundo dos adultos demasiado a sério.
Talvez nenhum de nós tenha querido realmente crescer, e a música acabou por ser o território onde essa infância comum continua protegida.
Hoje de manhã, mal acordei, o arquivo mental começou logo a tocar antes de qualquer pensamento sobre o dia de trabalho.
Nota: este post foi originalmente públicado em 2010 e, agora, reescrito.
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