A recente adição ao catálogo da Netflix de Man of the Year afigura-se como uma daquelas preciosas prendas cinéfilas que nos convidam à revisitação. A obra assinala a derradeira colaboração entre o inigualável Robin Williams e o realizador Barry Levinson.
Desta feita, a premissa transporta-nos para a vida de Tom Dobbs, um acutilante apresentador de um talk-show satírico que, movido por uma mistura de exaustão e escárnio perante a artificialidade da política tradicional — povoada por autênticos «homens de cera» e campanhas de um vazio confrangedor —, decide candidatar-se à Presidência dos Estados Unidos da América.
Apesar das suas ocasionais assimetrias de ritmo e de algumas decisões de argumento menos verosímeis, a obra transcende as suas próprias falhas pela força da sua figura central e pelo suporte que a excentricidade magnética de Christopher Walken, a acidez de Lewis Black e o carisma idiossincrático de Jeff Goldblum dão ao arco narrativo.
Para uma análise, de índole meramente cinematográfico, podem consultar o texto de Richard Propres, mas não posso deixar de dar nota do caráter premonitório do guião.
Como sempre, a realidade encarrega-se de ultrapassar a ficção com uma facilidade desconcertante pois assistimos à ascensão de líderes e figuras mediáticas que souberam converter a sua tração televisiva e o espetáculo satírico em poder executivo real e tangível.
Casos como o de Volodymyr Zelenskyy (ele próprio a transitar do papel de presidente fictício para a liderança efetiva de uma nação em guerra), ou as derivas populistas e mediáticas de Donald Trump e Boris Johnson que trouxeram sérios prejuízos para o projeto Europeu, provam que a barreira entre o entretenimento e a governação foi, de facto, desmantelada.
Não é sobre o filme em si que quero escrever, mas sim da relação entre o humor e o exercício do poder que tem sido, desde os alvores da civilização, intrincada e paradoxal. Se, por um lado, assumo como incontornável a célebre máxima de Mark Twain, segundo a qual “Irreverence is the champion of liberty and its only sure defense” reconhecendo a sátira como uma das mais valiosas ferramentas de escrutínio democrático, por outro, não podemos escamotear o perigo inerente à simplificação redutora do debate.
Vivemos num tempo em que o espaço público se encontra condicionado por um ecossistema mediático fragmentado. Entre a mecânica das redes sociais, desenhada para fomentar a polarização, e a permeabilidade de parte da imprensa ao sensacionalismo, o crivo dos humoristas e caricaturistas acaba por se afirmar, demasiadas vezes, como a principal via de descodificação da realidade política.
Esta dinâmica convida a uma reflexão profunda sobre o impacto corrosivo e o eventual desgaste cívico que a redução do debate a uma mera anedota pode infligir nas nossas instituições.
Trata-se de uma melancolia partilhada, de resto, por figuras imensas como Quino — o inesquecível criador de Mafalda —, que expressou nos seus últimos anos uma amarga desilusão, lamentando que o seu acutilante escrutínio satírico possa ter contribuído para a erosão do governo de Arturo Umberto Illia e assim ter exposto democracias que se revelam, afinal, tristemente frágeis
No ecrã, Dobbs aproveita na perfeição o descontentamento das pessoas, jogando com a velha fórmula do povo contra as elites e sem discursos ensaiados nem truques de assessores de imagem, diz tudo o que lhe vem à cabeça, sem rodeios.
O que arranca como uma piada depressa se transforma numa onda populista fora de controlo, mostrando como um eleitorado farto e desiludido se deixa encantar num instante pela ilusão de alguém genuíno e sem filtro.
Mas o verdadeiro problema não está apenas na figura de Dobbs ou na sua retórica provocadora. O seu sucesso expõe, acima de tudo, o enorme vazio deixado pelos políticos tradicionais.
Quando as elites se fecham nos seus gabinetes e tratam as preocupações reais dos cidadãos como queixas vulgares ou exageradas, criam o terreno perfeito para que surja um messias. Ao dar voz a essas ansiedades ignoradas, Dobbs não precisa de apresentar soluções concretas ou medidas bem estruturadas; basta-lhe validar a frustração de quem há muito sente que o sistema não o representa.
A juntar a isto, temos o papel cúmplice do próprio circo mediático. A televisão e as redes sociais adoram o espetáculo, e para uma indústria que vive das audiências, uma campanha política tradicional não vende.
Dobbs, pelo contrário, oferece entretenimento puro. As suas piadas e a sua frontalidade são consumidas como um programa inofensivo, até ao momento em que a linha entre a comédia e a política real se esbate por completo. O público consome a mensagem de forma passiva, rindo dos ataques ao sistema sem questionar as consequências de entregar o destino de um país a um mestre do palco.
Este fenómeno não é um simples acidente de percurso, mas sim um reflexo de democracias cansadas. A ascensão de figuras assim lembra-nos que, quando a política falha em ouvir a rua e os media transformam o debate público num espetáculo de entretenimento, a porta fica escancarada para que qualquer ilusão bem-falante tome conta do poder.
Há um outro aspeto curioso neste filme que está relacionado com a questão do voto eletrônico. Reparem que, para os guionistas, a possibilidade de Dobbs chegar a presidente era de tal forma inverosímil que tiveram de criar um glitch no sistema de voto para justificar a sua eleição.
A ironia é que, enquanto o filme usa a tecnologia como o erro que vicia o sistema, a realidade mostra-nos que o voto eletrónico pode ser precisamente o contrário: uma ferramenta fundamental para modernizar as nossas democracias e combater a abstenção.
Com a infraestrutura tecnológica que já temos hoje, não faz sentido estarmos limitados ao voto presencial em papel. A possibilidade de votarmos à distância, de forma segura, através da leitura do Cartão de Cidadão ou da Chave Móvel Digital, deveria ser um passo natural.
A Estónia, por exemplo, é pioneira mundial nesta matéria. Desde 2005 que os estónios podem votar a partir de casa ou de qualquer parte do mundo através da internet, usando o seu documento de identificação eletrónico ou o telemóvel. O sistema é tão fiável e prático que, hoje em dia, mais de metade dos eleitores estónios já escolhe votar desta forma.
Em vez de olharmos para o voto eletrónico com o mesmo receio e desconfiança que o filme retrata, devíamos encarar a tecnologia como uma aliada. Facilitar o acesso às urnas através do digital não é abrir a porta a fraudes ou a candidatos improváveis; é, muito simplesmente, aproximar a política da vida das pessoas e garantir que o ato de votar é tão simples e acessível como qualquer outra rotina do nosso dia a dia.
Mais importante do que a mecânica do voto é, no entanto, a reflexão sobre a responsabilidade moral.
Quando Dobbs descobre a verdade sobre a sua eleição, é forçado a abandonar o seu confortável distanciamento irónico em prol de um compromisso ético inabalável. O filme recorda-nos, que o exercício do poder não pode ser um mero ato de voluntarismo mediático. Perante a dúvida fundamental sobre a integridade eleitoral e a legitimidade do mandato, a verdade tem, imperativamente, de se sobrepor à manutenção do poder.
E isso é completamente traduzido pelo brilhante, e tão saudoso, Robin Williams com a sua capacidade singular de fundir o brilhantismo do génio cómico mais desenfreado com uma profundidade dramática e uma melancolia cortante.
É por isto que vale a pena revisitar o Man of The Year de 2006 !
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