Sing Backwards and Weep: A Coragem de Descer ao Inferno


Comprei este livro em abril ou maio deste ano e ficou ali, esquecido em cima da mesa da sala durante todo o verão, sem que eu conseguisse ganhar embalo para o abrir. 
Contudo, mal peguei nele, devorei as suas 350 páginas numa semana, se tanto. Tanto quanto me recordo, esta é capaz de ter sido a biografia que li em menos tempo. 
Eu próprio questionei o porquê deste meu interesse e desta voracidade na leitura pois nunca fui fã dos Screaming Trees e, embora a banda não estivesse estritamente categorizada como grunge, também nunca fui grande fã do som de Seattle (mas essa é uma conversa que fica para outra altura).
O prefácio do Peter Hook foi um aviso à navegação que este é um livro brutalmente honesto, para o qual deve ter sido precisa muita coragem por parte do Mark Lanegan para o escrever. Muita coragem mesmo. 
Que fique claro: esta obra não pode ser lida como uma espécie de autobiografia de um junkie glamourizado, na senda do que William S. Burroughs e muitos outros nos habituaram. 
Isto é a descrição nua e crua de uma verdadeira descida ao inferno da vida pessoal de Lanegan.
Claro que o livro tem episódios espetaculares da vida de bastidores e das digressões dos Screaming Trees. 
Há os encontros marcantes com o Liam Gallagher dos Oasis, a amizade com a Courtney Love e com o saudoso vocalista dos Alice in Chains, o génio inabalável do Dylan Carlson a inventar o que viria a ser o drone metal na cave de uma casa degradada em Seattle, as menções a figuras da cena de Olympia como Donna Dresch, ou os movimentos sincronizados e encontros com os Devo. 
É delicioso ler a sua profunda irritação por ser eternamente comparado a Jim Morrison pela imprensa, quando as suas verdadeiras bússolas vocais eram nomes como Ian Curtis, Falling James e Calvin Johnson. 
E que dizer da sua hesitação em entregar as suas próprias canções ao seu herói Johnny Cash, simplesmente por achar que o seu material era negro demais para alguém com uma relação tão próxima com Jesus?   
Mas o que realmente me faz escrever este post para o Estereopositivo é a forma como o livro nos obriga a olhar de frente para o alcoolismo e para a dependência. 
Quero aproveitar esta obra para sublinhar a minha opinião sobre a forma como o álcool é tratado na sociedade contemporânea — tolerado, banalizado e até romantizado em contexto social, mas atirado para a valeta da incompreensão quando a doença aperta. 
Para Lanegan, o álcool nunca foi um demónio menor; fica patente na obra que esta é uma dependência tão brutal, destrutiva e grave como o seu tão falado consumo de heroína. 
O facto de a sociedade focar o estigma nas drogas duras e assobiar para o lado perante o álcool apenas torna a armadilha ainda mais mortífera.
Lanegan não nos poupa. A passagem em que recorda o aviso sobre a recaída é aterradora: quando um alcoólico ou um heroínomano recomeça a consumir após um período de sobriedade, não recomeça do zero, mas retoma o vício no exato e avançado nível de destruição em que se encontrava quando parou. 
Há momentos em que a barreira cai por completo, e ele descreve a sua vulnerabilidade como um cão raivoso e enlouquecido pela doença a rasgar todas as suas defesas num choro incontrolável.   
Contudo, no meio de todo este isolamento, há feixes de luz que mostram o poder da empatia entre quem conhece as trevas. Foi o caso do gigante Waylon Jennings que, caminhando entre autocarros de digressão, percebeu a angústia de Lanegan e lhe deitou o braço ao ombro, partilhando silenciosamente do mesmo fardo.   
A voz cavernosa de Lanegan só me conquistou verdadeiramente nas brilhantes colaborações que fez com os Queens of the Stone Age ou naquela monumental "Hit the City" cantada a meias com a PJ Harvey. No entanto, Sing Backwards and Weep transcende a música, é um murro no estômago necessário e, sem dúvida, uma leitura obrigatória.

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