Quem acompanha as crónicas no Estereopositivo, ou as partilhas pontuais que vou deixando no Instagram, já terá notado uma atração inegável por sonoridades que nos chegam dos antípodas.
As minhas bandas sonoras têm sido frequentemente habitadas pela urgência de formações australianas como os Radio Birdman, os The Chats, C.O.F.F.I.N, os Amyl and the Sniffers e, naturalmente, os Frenzee.
Para compreender este fascínio, é imperativo olhar para a história da Austrália e para o código genético da sua música de garagem.
Existe uma relação muito curiosa entre a história inicial do país, outrora uma colónia penal, e a atitude do punk australiano.
Na cultura local, fala-se muito do conceito de "larrikinism", que descreve uma pessoa com um desprezo natural e até cómico pela autoridade e pelas normas rígidas da sociedade, mantendo sempre um orgulhoso espírito de rebelião.
Foi com esta atitude que nasceram os The Saints, transformando a frustração num autêntico grito de liberdade.
Como bem explica o historiador Clinton Walker no seu livro "Stranded", a música independente na Austrália cresceu de forma selvagem e genuína precisamente por causa deste isolamento, fazendo do ruído elétrico e da atitude de autossuficiência a sua maior força.
É exatamente desta linha que surgem os Frenzee em 2021.
Este trio apresenta uma história dividida entre dois mundos. Apollonia, Adonis e Nikos nasceram em Melbourne, onde absorveram a força do rock australiano, mas cresceram na Grécia, na ilha de Creta.
A música corre-lhes nas veias: os três irmãos pertencem à família Xylouris, uma das mais respeitadas dinastias ligadas à música folclórica cretense.
Este contraste cultural é fascinante. Embora tenham sido educados com o rigor da música tradicional acústica, os irmãos decidiram canalizar essa herança para o som distorcido do punk.
Fortemente inspirados pela cultura independente e pelo movimento Riot Grrrl (podendo, se tiverem interesse, ler a pequena biografia que fiz sobre Kathleen Hanna neste blogue), a sua música cruza o peso de clássicos como AC/DC e Motörhead com a força de bandas como Bikini Kill, Nirvana e Rage Against The Machine.
O trio chamou a atenção no final de 2022 com um primeiro EP intenso, mas foi com o álbum de estreia, "What's Wrong With Me", lançado em outubro de 2024, que mostraram a sua verdadeira identidade.
É um disco direto, composto por nove temas num curto espaço de vinte e um minutos, destacando-se canções enérgicas como "100°C" e "Pink Tax" — uma crítica pertinente ao custo exagerado dos produtos destinados às mulheres.
A atividade da banda nunca abrandou. Desde a vitalidade de "Hyperactive" em 2025, até à confiança demonstrada nos singles deste ano de 2026, como "Keep Comin my Way" e "Unapologetically me" a sua urgência criativa mantém-se.
O trio acaba de anunciar o segundo álbum de estúdio, intitulado "Runnin' Amok", com lançamento marcado para o próximo dia 23 de outubro de 2026.
Ouvir os Frenzee é um contágio veloz, corrosivo e inescapável que se infiltra diretamente na corrente sanguínea como um infeção !
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