Pressure (2025): Brendan Fraser, Eisenhower e o Silêncio que a Democracia Exige.

Fui ver Pressure (2025) e saí da sala com aquela sensação clara de ter assistido a um filme muito interessante e moldado pela cartilha clássica do cinema norte-americano.

A premissa assenta num facto real crucial, daqueles em que o destino do mundo ocidental ficou suspenso por um fio: as 72 horas que antecederam o Dia D e a batalha dos relatórios meteorológicos entre o capitão James Stagg (meteorologista-chefe britânico) e os comandos aliados, liderados pelo general Dwight D. Eisenhower.

Brendan Fraser assume o ecrã com uma presença física notável, personificando o peso colossal das decisões de comando, a tensão silenciosa das salas de mapas e o desgaste humano de quem sabe que milhares de vidas dependem de uma janela de bom tempo no Canal da Mancha. 

Longe vão os tempos de George of the Jungle, Airheads (com o Lemmy — Deus! — a confessar que geria o jornal da escola) ou mesmo de A Múmia. Não se enganem: adorei estes filmes da mesma forma que considero magistral o que ele fez com The Whale, que acaba por ser um prelúdio para o desempenho que vi neste filme.

É cinema de atores, de diálogos cortados à navalha e de um suspense que, embora conheçamos o desfecho histórico de antemão, nos mantém colados à cadeira e nos obriga a refletir sobre o verdadeiro peso de quem comanda. Para uma critica cinematográfica do filme, leiam o artigo publicado na Sur Impressions # 33.

Mas o que me interessa verdadeiramente focar aqui é o que significa o papel de Ike enquanto líder. 

Uma das características fundamentais de um líder é saber ouvir. Nos tempos que correm, acho que é cada vez mais importante ouvir do que propriamente falar. Aliás, se ouvirmos muito e estivermos atentos ao que os outros nos dizem, temos a oportunidade de dar um input com real valor.

Neste caso em concreto, o que Dwight "Ike" Eisenhower faz é algo simples. É de tão simples que não se percebe porque é que as vezes falha: temos que ouvir as pessoas que estão ao nosso lado. 

Quando falamos da Administração Pública — como é o caso, sendo o exército —, Eisenhower decide ouvir e ouve efetivamente os técnicos que o rodeiam.

É precisamente aqui que esta reflexão sobre a liderança pode e deve dar o salto para o debate político atual, nomeadamente no contraste entre a moderação e o desafio dos extremismos. 

O populismo alimenta-se do ruído, da agressividade cega e do desprezo arrogante por quem detém o conhecimento técnico. Num ensaio recente ("Drawing From Christian Sources: The Impetus for Christian Democracy", integrado na obra Christian Democracy, Conservatism and the Challenge of the Extremes), o investigador Stefan Lunte recorda-nos o conceito grego de prâos — a mansidão, a tolerância ou a capacidade de compreensão —, lembrando que a própria democracia não funciona sem esta "gentileza" institucional.

Esta atitude não é, de todo, uma fraqueza ou um retiro tímido. É uma virtude cívica central. O que vemos Fraser interpretar no ecrã é um líder dotado daquilo a que alguns teólogos chamam ortopatia: a empatia e a maturidade necessárias para analisar o contexto humano, silenciar o ego e tomar a decisão certa, mesmo quando ela é impopular.

E isto é particularmente importante na Administração Pública onde temos de ter equipas técnicas robustas, que estejam disponíveis para dizer "não" quando se tem de dizer "não", fundamentado a sua ação, tal como fez o Capitão James Stagg. 

E a verdadeira defesa das nossas instituições democráticas contra os radicalismos exige que tenhamos líderes suficientemente maduros para praticarem este prâos — verdadeiros líderes que ouçam e percebam que, quando a técnica e a realidade dizem "não", é mesmo "não".

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