O Direito à Pausa e a Atitude Punk de (Re)ler, (Re)ver e (Re)ouvir


Um dos meus prazeres secretos é ler as aventuras do Robert Langdon, sendo que o O
Código Da Vinci já vai na terceira volta. E foi precisamente no meio destas páginas que dei por mim a pensar na pressão que sentimos para ler sempre coisas novas.

Vivemos na era da pilha de livros, quer por andamos atras das novidades, porque atrasamos momentos de leitura ou porque temos, literalmente, mais olhos que barriga. Para muitos, reler soa a perda de tempo pois para que voltamos a um labirinto onde já sabemos onde fica a saída?

A resposta é simples: pelo conforto da viagem. Quando já sabemos o final, a nossa relação com a história muda e deixamos de ser o detetive apressado que só quer saber o que acontece a seguir, e passamos a apreciar a forma como a história foi construída.

Mas a releitura vai além da estrutura; resume-se, no fundo, a um refúgio. É por isso que certos velhos favoritos permanecem sempre à mão, com as lombadas quebradas e os cantos coçados das páginas, que nos trazem a mesma familiaridade que o perfume de um ente querido ou uma piada privada partilhada com um velho amigo. Por isso é que retorno, muitas vezes, as minhas tiras clássicas do Asterix e da Mafalda ou aos contos malditos do H.P. Lovecraft.

São estas as obras que conseguem amparar-nos nos dias mais cinzentos, ou naqueles momentos em que a nossa mente não está bem, e que precisamos de algo que nos estimule. Noto muito isso, num tempo em que a produção literária converge, cada vez mais, para o universo do fantástico e do terror, encontro consolo em escritores de Ficção Cientifica, que sempre me acompanharam - como o Robert Silverberg, Arthur C. Clarke ou Isaac Asimov - de uma forma que poucas novidades literárias conseguem. Sem esquecer, o que na minha opinião continua a ser o melhor livro de Ficção Cientifica escrito em Portugal, o Terrarium do João Barreiros e do Luís Filipe Silva, que já li duas vezes e vou, em breve, iniciar uma nova viagem.

E depois, há a dimensão da autodescoberta, onde as revelações que emergem quando regressamos a títulos que não líamos há anos são duplas: descobrimos coisas novas sobre a própria história, claro, mas também sobre nós próprios. 

O livro que lemos aos 20 e aos 30 anos não é o mesmo que lemos aos 50, porque já não somos os mesmos. A forma como reagimos a um capítulo, a uma página ou a uma frase diz-nos muito sobre como mudámos e sobre o lugar onde estamos agora na vida. O livro do Bertrand Russel, A Minha Concepção do Mundo ou o Despertar dos Mágicos do Louis Pauwels e do Jacques Bergier, são dois desses exemplos.

É exatamente o mesmo princípio que se aplica ao cinema. Quando voltamos a ver um filme que adoramos — como o clássico Drácula de 1931, de Tod Browning com o inigualável Bela Lugosi, que já revi umas quatro ou cinco vezes —, ou o Point Break de 1991, realizado pela Kathryn Bigelow, reparamos em pormenores e cenários, que antes nos passavam ao lado.

Aconteceu-me isso mesmo, quando revi a adaptação do próprio Código Da Vinci ao ecrã na passada semana. Na cena em que o Robert Langdon e a Sophie Neveu viajam num autocarro em Londres, à procura da Temple Church, estão lá sentados dois passageiros muito particulares: Lynn Picknett e Clive Prince. São precisamente os investigadores britânicos autores de A Revelação dos Templários, uma das obras que inspirou Dan Brown (como é referido no documentário Desvendar o Código). 

Como já não temos a ansiedade de saber como acaba a ação, a nossa atenção fica livre para descobrir estes pequenos tesouros escondidos. A obra ganha uma nova camada.

No fundo, reler um livro ou rever um filme não é muito diferente de voltar a pôr a rodar aquele disco clássico que nos acompanha há anos - sejam o S/T dos Ramones, o Vol. 4 dos Black Sabbath ou L'Histoire de Melody Nelson de Serge Gainsbourg - já sabemos perfeitamente onde colocamos a agulha, onde entra o refrão e não há surpresas à espreita. E é mesmo essa familiaridade que sabe tão bem.

Num mundo que nos empurra sempre para a frente, parar para reler é uma pequena rebelião. É uma atitude Punk de reivindicar o direito à pausa e o prazer de reencontrar velhos instintos e velhos amigos numa tarde fria de domingo.

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